
O setor de telecomunicação vive um período de transição no Brasil. Nos últimos anos, os mercados de telefonia móvel e de banda larga fixa expandiram suas redes no país. No entanto, persistem disparidades: enquanto nos grandes centros há mais competição e capacidade instalada, em regiões menos densas o desafio é estrutural, marcado por alto custo, menor retorno e dificuldade de implantação.
Desde o início da desestatização, em 1998, o setor mudou profundamente. À época, o principal serviço disponível era a telefonia fixa, com um enorme déficit de infraestrutura e longas filas para a aquisição das linhas disponíveis. Após a concessão para operadores privados, iniciou-se um processo de investimento em novas redes, dobrando a quantidade de assinantes em poucos anos.
No início dos anos 2000, a operação passou a se popularizar no lastro dos investimentos em áreas desatendidas, impulsionada pelas obrigações estabelecidas pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) nos editais de licitação de radiofrequências. Em sequência, vieram atualizações em 3G (2007), 4G (2012) e 5G (2021). “A telefonia móvel teve seu auge em 2014, com mais de 180 milhões de linhas”, afirma a Anatel.
Segundo a agência reguladora, o modelo público de concessões deixou de existir no final de 2025, após o término dos contratos remanescentes. Agora, os serviços de telefonia no país — fixa, móvel (incluindo 4G e 5G) e banda larga — são explorados inteiramente em regime privado, mediante autorização.
TRANSIÇÃO
Nesse processo, a área ganhou novas prioridades. Segundo Lucas Sampaio Santos, sócio do escritório Arruda Alvim & Thereza Alvim Advocacia, o foco migrou da expansão da infraestrutura básica para a massificação da banda larga e da internet móvel, com a consolidação do 3G e do 4G.
“Com isso, houve uma transformação do perfil do serviço, sendo que a telecomunicação deixou de ser essencialmente voz e passou a ser dados”, diz ele. “Isso trouxe um aumento exponencial do tráfego e da demanda por investimentos contínuos e de grande escala para modernização de rede.”
Aproveitando-se da expansão das redes fixas, a banda larga também cresceu a partir dos anos 2000. Com a evolução da tecnologia de fibra ótica e a definição de compromissos para expansão do backhaul, a internet de banda larga começou a avançar para o interior.
“O setor mudou de escala”, reforça Carlos Eduardo Sedeh, CEO da SAMM. “Se antes era apenas voz e internet básica, hoje é uma infraestrutura essencial para praticamente toda a economia.”
Com isso, a fibra ganhou capilaridade, o backbone cresceu e as redes móveis aumentaram exponencialmente em capacidade. “A discussão deixou de ser só cobertura, pois hoje falamos de qualidade, robustez e resiliência”, prossegue Sedeh. “A rede precisa estar preparada para aplicação crítica, não apenas para navegação.”
O país atualmente conta com uma base de acessos robusta e em expansão. “Esse é o resultado direto dos investimentos realizados pelas operadoras ao longo das últimas décadas”, afirma Lucas Santos.
OBSTÁCULOS
De acordo com a Anatel, o Brasil possui cobertura móvel 4G para 93% dos brasileiros, com cerca de 270 milhões de linhas ativas. Na banda larga fixa, são quase 55 milhões de assinantes, enquanto na telefonia fixa a abrangência supera 20 milhões de acessos.
Em relação às redes, 80% dos assinantes de banda larga utilizam fibra ótica e 87% dos usuários móveis estão em redes 4G e 5G. “A internet fixa segue em expansão consistente, com cerca de 53,9 milhões de acessos registrados ao final de 2024”, observa Santos.
Segundo ele, o setor já superou a etapa de massificação do acesso e enfrenta agora o desafio de sustentar qualidade, capacidade e investimentos em um ambiente regulatório complexo. “Os principais gargalos incluem o alto custo de implantação da infraestrutura”, afirma.
Além disso, o setor convive com carga tributária elevada e custos regulatórios relevantes, o que reduz a capacidade de reinvestimento e encarece a expansão, especialmente em áreas menos densas.
Outro ponto relevante é a assimetria regulatória e a municipalização de regras. “Como cada município tem uma regra diferente, o investimento torna-se mais lento e caro”, aponta Sedeh. A instalação de antenas, por exemplo, ainda depende de legislações locais heterogêneas e muitas vezes morosas, criando gargalos para expansão, especialmente do 5G.
A judicialização das relações de consumo também representa um desafio. Segundo Santos, o país registra milhões de ações envolvendo telecomunicações, muitas com pedidos padronizados e indenizações automáticas.
Há ainda um desafio estrutural de equilíbrio econômico: enquanto operadoras investem em redes robustas, grande parte do valor econômico da internet é capturado por plataformas digitais globais, pressionando o modelo de negócios e levantando discussões sobre sustentabilidade de longo prazo.
DISPARIDADES
Apesar da expansão, ainda existem áreas com atendimento precário, especialmente na Região Norte. “No celular, por exemplo, a maior parte dos clientes são pós-pagos no Centro-Sul e pré-pagos no Norte-Nordeste”, comenta Eduardo Tude, presidente da Teleco.
Segundo Santos, essa discrepância está mais associada a fatores estruturais do que a decisões de investimento. Regiões com maior densidade populacional e renda mais alta tendem a atrair mais rapidamente investimentos, enquanto áreas remotas enfrentam desafios como distância, logística e custos elevados.
Mesmo assim, o cenário vem melhorando com mecanismos regulatórios e obrigações de cobertura estabelecidas em leilões recentes, especialmente do 5G, além da expansão de provedores regionais de fibra óptica.
“O desequilíbrio ainda existe, mas não é estático”, afirma Santos. “A tendência é de redução gradual da diferença regional, combinando investimento privado, compromissos regulatórios e novas tecnologias.”
DISPONIBILIDADE
Mesmo em regiões densamente povoadas, ampla cobertura não significa sinal perfeito em qualquer ambiente. Segundo Santos, há limitações físicas inevitáveis, como estruturas metálicas, subsolos, túneis e interferências urbanas.
“Isso ocorre especialmente nas frequências mais altas do 5G, que oferecem maior velocidade, mas menor capacidade de penetração em obstáculos físicos”, explica.
Além disso, entraves urbanísticos e burocráticos dificultam a instalação de novas estações em grandes centros, criando áreas com menor qualidade de sinal.
Outro fator é o congestionamento em horários de pico ou eventos de grande porte, quando a rede pode ser temporariamente saturada. “A percepção de falhas pontuais pode ocorrer, mas estruturalmente o país já conta com ampla disponibilidade tecnológica”, conclui.